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O que a atual crise econômica representa para o setor de tecnologia

As sementes para o progresso e para a próxima onda costumam ser plantadas nos ciclos anteriores.

“O progresso é cumulativo em ciência e engenharia, mas cíclico em finanças.” James Grant.

A economia funciona em ciclos de expansão e retração e, algumas vezes, nos ciclos de crescimento, observamos comportamentos e excessos que parecem irracionais quando colocados sob o ponto de vista histórico. Essas “irracionalidades” foram batizadas de bolhas.

A referência histórica a elas é sempre pejorativa. Mas quando olhamos sob a perspectiva de que, em diversas áreas – incluindo a tecnologia – o progresso é cumulativo, podemos argumentar que as bolhas são benéficas: os excessos criam condições ideais para inovação e execução de visões ambiciosas, coisas que não seriam possíveis em economias constantemente “mornas”. Além disso, o estouro das bolhas também tem um papel importante em impulsionar a sociedade, ao ajudar a selecionar os projetos e inovações sustentáveis.

Dentro desse contexto podemos entender melhor o que a atual crise representa para o setor de tecnologia.

Quando olhamos para a evolução dessa indústria nos últimos quinze anos, desde o estouro da bolha do “subprime” em 2008, fica claro que os principais vetores para o surgimento de diferentes modelos de negócios escaláveis vieram do uso da computação em nuvem e da distribuição através de dispositivos móveis. Essas inovações se consolidaram e amadureceram depois do estouro da bolha anterior, a bolha do “ponto.com”, e só foram possíveis pois a internet surgiu e amadureceu no ciclo anterior. Ou seja, olhando do ponto de vista tecnológico, as sementes para o progresso e para a próxima onda costumam ser plantadas nos ciclos anteriores.

Analisando a situação atual da economia, estamos saindo de um ciclo de juros e inflação muito baixos para um ciclo em que eles se apresentam mais altos e persistentes. Os motivos para essa mudança são inúmeros e esse processo foi acelerado pela resposta à pandemia e pela guerra na Ucrânia. Mas a base da mudança é a geopolítica, principalmente a partir da relação China-EUA. Estamos vivendo um processo inverso à globalização, que é inflacionário.

Ao mesmo tempo, a quantidade de sementes que foram plantadas nesse último ciclo foi grande: desde a evolução das ferramentas de computação em nuvem — que permitiram a massa crítica necessária de processamento para o uso comercial e efetivo da inteligência artificial —, passando pela computação quântica e tecnologias de baterias, para mencionar algumas.

Essas sementes, combinadas com a seleção natural que está em andamento devido à escassez de capital, formam um cenário em que negócios que não são sustentáveis têm sua existência comprometida, enquanto os negócios mais sustentáveis passam a se adaptar e enfrentar menos competição. Os ingredientes para um novo ciclo já estão aqui, e isso representa uma oportunidade para quem continuar apostando no setor de tecnologia.

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