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A tecnologia e o autoconhecimento

Nós somos viciados nos nossos celulares, não porque confiemos neles, mas porque usamos os aparelhos para fugir de nossos próprios pensamentos

Todos nós sabemos, é claro, que a tecnologia nos trouxe benefícios incalculáveis. Permitiu que nos comunicássemos com praticamente qualquer pessoa no planeta, de qualquer lugar; garantiu acesso instantâneo a informações sobre qualquer assunto; e possibilitou análises de dados perturbadoramente precisas para entender os consumidores. Mas também sabemos que a tecnologia trouxe efeitos negativos sérios. Talvez o mais importante seja o impacto sobre o nosso bem-estar mental. Para explicar da maneira mais nua e crua possível: quanto mais avançado é o nosso conhecimento sobre tecnologia, menos entendemos sobre nós mesmos.

O problema não é que dependemos da tecnologia; é que somos viciados nela. Vício é a dependência de uma substância que faz com que deixemos de lado nossas reais esperanças e medos. É, ainda, qualquer tipo de procedimento que usamos para evitar um encontro justo e franco com as nossas próprias mentes. Quando dizemos que estamos viciados nos nossos celulares, isso não quer dizer apenas que usamos os aparelhos com muita frequência. Significa algo bem mais sombrio: que nós usamos nossos celulares para nos distanciarmos de nós mesmos.

or causa da nossa dependência dos aparelhos, podemos nos sentir incapazes de sentar sozinhos em uma sala com os nossos pensamentos que flutuam livremente em nossas cabeças, nos aventurando no passado e no futuro, nos permitindo sentir dor, desejo, arrependimento e entusiasmo.

Nós somos viciados nos nossos celulares, não porque confiemos neles, mas porque recrutamos os aparelhos para um projeto nocivo de fuga de nós mesmos. Os dispositivos não foram criados com a intenção de nos prejudicar. Mas nós podemos usá-los – e algumas vezes fazemos isso – para nos ferir.

Podemos descobrir tantas coisas nos nossos celulares: checar a população de Manaus (2,7 milhões); saber quem ganhou a final feminina de Wimbledon em 1997 (Martina Hingis); ou ainda procurar o autor daquela frase fascinante, “O que não nos mata nos deixa mais fortes” (Nietzsche). Mas essa ferramenta que usamos constantemente tem um efeito colateral não-intencional e lamentável. Nós preferimos pedir conselhos aos celulares do que a nós mesmos.

Não temos, claro, conhecimento de tantos fatos obscuros. Mas nós já temos à nossa disposição – de forma dispersa e crua – a matéria-prima que poderia dar origem a um enorme número de ideias e insights, se apenas déssemos a ela o tempo e a atenção necessários para chegar lá. Nós temos a nosso favor uma experiência imensa, que ainda não está completamente articulada. Suas lições não foram formuladas e as conclusões ainda não foram extraídas.

Muitas vezes, não precisamos de mais informações, e sim de um uso mais ambicioso dos dados que já temos. Como imaginamos férias genuinamente agradáveis? Do que eu realmente gosto nos jogos de tênis? O que preciso e quero dizer para os meus amigos? O único instrumento necessário para responder a essas perguntas é o seu próprio cérebro. E, talvez, haja apenas uma citação que devemos procurar. É esta, de Ralph Waldo Emerson: “Na mente dos gênios, descobrimos nossos próprios pensamentos negligenciados”.

Claro que não é realista imaginar que podemos simplesmente abandonar nossos celulares, tablets e notebooks. Eles se tornaram parte integral da vida nos tempos modernos. Em vez disso, é preciso inverter a situação e fazer com que a tecnologia trabalhe em favor do autoconhecimento.

É assim que lidamos com o universo digital na The School of Life. Nosso site e nossos canais contêm vídeos, ensaios e eventos ao vivo, todos desenvolvidos para ensinar às pessoas a arte do autoconhecimento e dos relacionamentos. Em vez de evitar os próprios pensamentos, todos são encorajados a entrar em contato com os seus sentimentos, medos e desejos mais profundos.

A tecnologia não está destinada a destruir as nossas mentes. Usada com sabedoria, ela pode nos proporcionar uma janela para as nossas almas, ao mesmo tempo em que funciona como uma ampla plataforma para nos conhecermos e interagirmos uns com os outros.

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